Se você atua na área cível, já sabe que a fase pericial pode definir o resultado de um processo. E os quesitos são o instrumento que você tem para orientar essa fase.
O problema é que elaborar quesitos com qualidade técnica exige mais do que conhecimento jurídico. Exige entender o campo técnico envolvido, contábil, de engenharia, de TI, de medicina, com profundidade suficiente para fazer as perguntas certas.
Na prática, a maioria dos advogados cíveis formula quesitos sem esse suporte. O resultado aparece no laudo: respostas vagas, pontos críticos não investigados e conclusões que não sustentam a tese jurídica.
Portanto, este artigo apresenta 5 estratégias concretas para você elaborar quesitos com precisão técnica e reduzir o risco na fase pericial.
Por que quesitos mal elaborados custam processos
Antes das estratégias, é preciso entender o mecanismo do problema.
O perito judicial responde estritamente o que foi perguntado. Se o quesito for vago, a resposta será vaga. Se o ponto técnico central não foi perguntado, ele simplesmente não entra no laudo.
Dessa forma, quem elabora os quesitos está definindo, na prática, os limites do que será investigado tecnicamente no processo.
Isso significa que um quesito mal construído não é apenas uma pergunta ruim, é uma lacuna probatória que pode ser irreversível após a conclusão do laudo.
Os erros mais comuns do advogado cível na fase de quesitos
Usar modelos genéricos sem adaptação
É o erro mais frequente. Perguntas como “houve dano?” ou “qual o valor do prejuízo?” são tecnicamente insuficientes. Elas não delimitam método, período, critério de cálculo ou documento de referência.
O perito preenche essas lacunas com o que julgar adequado. Assim, o laudo fica sob controle técnico do perito, não da sua estratégia.
Formular quesitos sem entender o campo técnico
Para perguntar com precisão, é necessário compreender minimamente o campo em questão. Sem isso, o advogado não sabe o que está deixando de fora. E o que fica fora do quesito não entra no laudo.
Ignorar os quesitos da parte contrária
Os quesitos do adversário também moldam o laudo. Não analisá-los é uma omissão estratégica grave. A parte contrária pode estar direcionando o perito para uma conclusão desfavorável, e esse risco passa despercebido se não houver leitura técnica dos quesitos adversos.
5 estratégias para elaborar quesitos com eficiência técnica
1. Identifique a controvérsia técnica antes de escrever qualquer quesito
O primeiro passo não é formular perguntas. É mapear com clareza qual ponto técnico precisa ser provado ou refutado para sustentar a tese jurídica.
Pergunte-se: qual conclusão o laudo precisa alcançar? A partir dessa resposta, cada quesito passa a ter uma função estratégica específica dentro da produção probatória.
Sem esse mapeamento prévio, os quesitos tendem a ser genéricos, e genérico, na fase pericial, é sinônimo de risco.
2. Use a linguagem técnica correta do campo pericial
Cada área técnica tem terminologia própria. Perícia contábil, engenharia, tecnologia da informação e medicina exigem vocabulários distintos.
Quesitos redigidos com termos exclusivamente jurídicos em contexto técnico geram respostas evasivas ou ambíguas. Por outro lado, quando o quesito usa os termos corretos do campo pericial, o perito entende com precisão o que está sendo solicitado.
Se você não domina essa terminologia, e é natural que não domine, esse é o ponto onde suporte técnico especializado faz diferença concreta.
3. Delimite os parâmetros de cada pergunta
Quesito sem parâmetro é quesito aberto. E quesito aberto transfere o controle técnico para o perito.
Ao formular uma pergunta, inclua: o período de análise, o documento de referência, o método esperado e o critério de avaliação. Isso não restringe o perito indevidamente, orienta a investigação para o ponto que realmente importa para o processo.
Por exemplo: em vez de perguntar “qual foi o dano material?”, pergunte “qual foi a variação patrimonial entre os períodos X e Y, com base nos documentos de fls. Z, e qual o critério metodológico adotado para a apuração?”
A diferença no resultado do laudo é direta e mensurável.
4. Analise os quesitos do adversário com leitura técnica
Não basta ler os quesitos da parte contrária sob o ângulo jurídico. É necessário identificar se algum quesito induz o perito a uma conclusão desfavorável, se há omissão de variável relevante ou se existe direcionamento metodológico implícito.
No entanto, contestar quesitos inadequados exige fundamento técnico. Sem esse fundamento, a impugnação é fraca e dificilmente prospera.
Esse é um ponto onde a ausência de suporte técnico tem custo processual real.
5. Envolva suporte técnico antes da fase de formulação, não depois
Essa é a estratégia mais ignorada e, ao mesmo tempo, a mais eficaz.
O consultor técnico não deve entrar apenas para acompanhar a perícia ou impugnar o laudo. Ele deve entrar antes, na fase de formulação dos quesitos, para garantir que as perguntas certas sejam feitas no momento certo.
Assim, o laudo pericial deixa de ser uma variável fora do seu controle e passa a ser um instrumento previsível dentro da estratégia processual.
O custo de agir tarde
O padrão mais comum é o seguinte: o advogado percebe o problema quando o laudo já foi entregue. Nesse ponto, as opções são limitadas e custosas.
A impugnação ao laudo exige fundamento técnico sólido e bem estruturado. A complementação de quesitos depende de autorização judicial, e nem sempre é concedida. O desgaste com o cliente, diante de um resultado técnico desfavorável, é real.
A análise técnica prévia à fase pericial não é um custo adicional. É uma medida concreta de controle de risco processual.
Elaborar quesitos com qualidade técnica é uma das competências mais estratégicas do advogado cível, e uma das mais negligenciadas.
Não se trata de substituir o conhecimento jurídico. Trata-se de complementá-lo com suporte técnico especializado no momento certo, reduzindo o risco de um laudo que não sustenta a tese ou que, pior, favorece a parte contrária.
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